Na beira daquela praia de areia branca, meus pés afundavam como cicatrizes na memória — fundidos à carne. O mar dormia. Dormia com olhos entreabertos, como quem guarda segredos de amantes afogados. Só quem já amou de ventre aberto entenderia aquele murmúrio salgado. Havia uma ponte — pequena, torta, feita de madeira esquecida — um cais cansado onde o tempo largava o corpo pra ouvir o vento gemer. E então veio a voz. Rasgada. Cheia de ferrugem. Canto que não canta — corta. Tem barco à vela e um amor verdadeiro. Quem chegar primeiro pode navegar. Só não disse que poderia também sangrar... Ele. Meu amor-senhor, cravado em mim como promessa não cumprida. Tinha mãos de prece e ombros onde o mundo ia chorar em silêncio. O peito era abrigo e tempestade — abrigo da tempestade. E a voz... a voz que uma vez me chamou de...
Poesia sobre se sentir invisível: me desfiz no meio da multidão Tem gente que some mesmo cercada de pessoas não porque quer mas porque ninguém fica No meio da multidão, me desfiz. Rodeada, fui sumindo por dentro. Chamam isso de vida... mas que diz a alma que se estreita em sofrimento? São tantos os que olham sem me ver, palavras ocas, toques sem calor. Conversam pra não ter que perceber que estou morrendo à margem do amor. Dizem: “Sente demais”, como um defeito. “Se entrega tanto”, como quem condena. Mas quem me amou sem peso, sem conceito? Quem viu a flor nascida em terra plena? Aos poucos, fui murchando, em silêncio, me encolhi para caber nos esquecidos. Meu peito foi do abismo ao reverêncio, hoje é grão de areia entre ruídos. Me usam. Me descartam. Me sorriem. Não sabem do vazio que carrego. E mesmo assim, meus passos ainda seguem na névoa dos espelhos onde nego. A esperança virou hábito, rotina. E o afeto, um deserto sem alarde. O que chamam de amor se contamina com...
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