Postagens

A última vez

Houve um tempo em que a vida cabia inteira no quintal, no portão aberto, na rua de terra ou de pedra, no chamado da mãe vindo de dentro de casa, no riso dos amigos atravessando a tarde como se a tarde não tivesse fim. A infância tinha um gosto que depois nunca mais voltou igual: gosto de fruta comida sem pressa, de joelho ralado, de cabelo molhado depois do banho, de comida simples esperando na mesa, de pai chegando cansado e, ainda assim, parecendo eterno. A gente não sabia que estava vivendo o que um dia seria saudade. Não sabia que certas tardes eram raras, que certos amigos ficariam para trás sem despedida, que algumas vozes, alguns cheiros, alguns gestos dos nossos pais seriam guardados dentro da memória como quem guarda uma fotografia antiga, já um pouco apagada, mas ainda capaz de doer. Naquele tempo, tudo parecia continuar para sempre, porque criança não entende o fim; criança apenas corre, inventa, acredita, chama, espera, brinca. E havia coisas que chegavam e iam embora sem a...

Poesia sobre saudade: ainda sinto sua falta em silêncio

Poesia sobre saudade: ainda sinto você onde ninguém vê Tem coisas que não vão embora mesmo quando tudo termina você foi mas deixou em mim um silêncio cheio do seu nome às vezes eu finjo que não sinto mais que segui que aprendi que esqueci mas basta um detalhe pequeno — uma música um cheiro um jeito de alguém rir e tudo volta como se nunca tivesse ido eu ainda converso com você em pensamentos que não envio ainda te encontro nos lugares onde você nunca mais vai estar e o mais difícil de admitir é que eu continuo aqui sentindo falta de alguém que já não sente mais nada por mim Essa é uma poesia sobre saudade, sobre sentir falta de alguém que já não está. Reflexões e escrita autoral © Pris Magalhães

Aquilo que não se nomeia

Poesia sobre sentir sem entender: quando o amor vira um quase Tem sentimentos que não cabem em nome nenhum só ficam ali entre o que foi e o que nunca chegou a ser não sei o que sinto — é um oco suspenso entre mim e ti, um intervalo que respira onde antes havia nome, gesto, calor um vazio em volta do que fomos que não chega a ser querer, mas também não aceita o esquecimento é um quase, um resto, um eco do que não fomos aquela ausência não dói como falta, não chama, não grita — mas às vezes queria vê-la outra vez, como quem revisita um sonho sem saber se acorda ou permanece há uma cor que se desfaz devagar como tarde que se cansa de existir, e nela a melancolia: de ter visto um brilho inteiro de uma infância que talvez pudesse ter sido outra eu inteira no seu inteiro — era possível, eu acho — mas nos dissolvemos naquela nuvem que apontamos no céu azul daquela tarde de verão “é um coração”, eu disse “não, é uma árvore”, disse você e assim ficou: indefinido como tudo que fomos talvez ambos...

Florescer em carne viva

  Eu floresço mesmo quando o mundo é inverno Antes de qualquer palavra, houve silêncio. E nele, eu aprendi a caber onde nunca fui inteira. Eu fui silêncio antes de ser voz. Fui sombra ensinada a não ocupar espaço, corpo dobrado em caber no mundo dos outros, nome sussurrado — quando não apagado. Eu fui a que baixava os olhos para não incendiar o desconforto alheio. Fui a carne educada no medo, no “não pode”, no “não deve”, no “não é seu”. Por milênios, fui ferida aberta que ninguém ousava chamar de dor. Sangrei em segredo — não só o sangue do ventre, mas o sangue da história, das mãos contidas, das palavras engolidas, dos sonhos interrompidos antes de nascer. Fui chamada de fraca enquanto sustentava o mundo nas costas. Fui chamada de louca quando finalmente comecei a sentir. Fui chamada de tudo menos aquilo que sempre fui: inteira. Mas há um momento — há sempre um momento — em que o silêncio apodrece na garganta. E então eu vejo. Vejo o que me negaram. Sinto o que me p...

Entre Gente, Ninguém

  Poesia sobre se sentir invisível: me desfiz no meio da multidão Tem gente que some mesmo cercada de pessoas não porque quer mas porque ninguém fica No meio da multidão, me desfiz. Rodeada, fui sumindo por dentro. Chamam isso de vida... mas que diz a alma que se estreita em sofrimento? São tantos os que olham sem me ver, palavras ocas, toques sem calor. Conversam pra não ter que perceber que estou morrendo à margem do amor. Dizem: “Sente demais”, como um defeito. “Se entrega tanto”, como quem condena. Mas quem me amou sem peso, sem conceito? Quem viu a flor nascida em terra plena? Aos poucos, fui murchando, em silêncio, me encolhi para caber nos esquecidos. Meu peito foi do abismo ao reverêncio, hoje é grão de areia entre ruídos. Me usam. Me descartam. Me sorriem. Não sabem do vazio que carrego. E mesmo assim, meus passos ainda seguem na névoa dos espelhos onde nego. A esperança virou hábito, rotina. E o afeto, um deserto sem alarde. O que chamam de amor se contamina com...

Noite em vozes

Poesia sobre dor e solidão: a noite veste o meu delírio Tem noites que não passam elas se instalam e fazem da gente morada do que não cicatriza A noite é longa e veste o meu delírio, minha alma é feita em véus e porcelana. Sangro desejos num soneto lírio, sou sombra que no espelho se profana. O mundo dorme... eu bebo o desvario do medo em taças sujas de desgosto. Queria amar, mas tudo está tão frio, e o tempo é só um anjo sem rosto. Ó Frida Kahlo , irmã de dores e de abismos, ouve meus ais, responde aos meus sinais! Como suportas viver assim, tão só? Florbela Espanca , flor que arde em céu sem chão, eu pinto a dor pra que ela me escorra. Minha alma é uma ferida em combustão, e cada cor é lágrima que borra. Eu rio enquanto sangro em retaliação. Faço do medo um bicho que me lambe. Fui traída até pelo meu coração — mas o transformei num altar que arde. A noite me quer morta, eu sei. Eu sinto. Mas costuro os pedaços com meu grito e me penduro no tempo como um quadro. Ah, Frida K...

Ah, se me deixassem apenas dormir

Poesia sobre dor profunda: entre a ferida e a arte, eu ainda existo Tem dores que não gritam elas queimam por dentro e a gente aprende a continuar mesmo em brasa Com os pés no abismo e a alma em brasa, Piro-me em Florbela Espanca , rasgo-me em Frida Kahlo — meus olhos sangram tintas que não passam, minha carne, em febre muda, se liquida. Carrego no peito um peso que não é pedra, é punhal de ausência, é silêncio cru, é um grito soterrado em boca selada, é o choro que nunca vê a luz. É névoa sem nome e cor, é um vulto que se deita em meu leito, me beija a fronte com hálito de dor e me costura os sonhos no peito. É uma morte que caminha viva, um cansaço que atravessa o osso, um eco que nunca finda, uma ânsia de sumir no fosso. Há dias em que não sou nem sombra. Sou menos que o som do que fui. Há noites em que até as lágrimas cansadas já não fluem. Minha pele dói sem toque, sem motivo, minha espinha verte memórias frias. A alma, desbotada de adjetivos, se arrasta entre os escombros dos di...