A última vez
Houve um tempo em que a vida cabia inteira no quintal, no portão aberto, na rua de terra ou de pedra, no chamado da mãe vindo de dentro de casa, no riso dos amigos atravessando a tarde como se a tarde não tivesse fim. A infância tinha um gosto que depois nunca mais voltou igual: gosto de fruta comida sem pressa, de joelho ralado, de cabelo molhado depois do banho, de comida simples esperando na mesa, de pai chegando cansado e, ainda assim, parecendo eterno. A gente não sabia que estava vivendo o que um dia seria saudade. Não sabia que certas tardes eram raras, que certos amigos ficariam para trás sem despedida, que algumas vozes, alguns cheiros, alguns gestos dos nossos pais seriam guardados dentro da memória como quem guarda uma fotografia antiga, já um pouco apagada, mas ainda capaz de doer. Naquele tempo, tudo parecia continuar para sempre, porque criança não entende o fim; criança apenas corre, inventa, acredita, chama, espera, brinca. E havia coisas que chegavam e iam embora sem a...