Sou o caminho em direção à casa, ouvindo seus ossos, músculos e tendões estalarem sob o açoite do fogo. O calor arde minha pele e incendeia meus olhos, como se parte fossem dessa madeira enegrecida, consumida pelas labaredas que sobem ao céu num vermelho obsceno. É assim o sopro do inferno? Atrás de mim, zumbidos, risos, cantos e euforia me seguem a galope. Parece que vêm daquele convento. Vejo freiras e frades. Vejo igreja e trajes. Vejo ruína de carne e cimento. Ninguém vê a cólera do fogo sangrando esperança? Ninguém vê a pureza do céu jurando vingança? Ninguém vê essas bocas de dores e alegrias devorando nossos fígados em banquetes para poucos, para loucos? Para porcos. Vejo Cristo crucificado. De novo. Imóvel e cansado. As feridas ainda doem em minhas mãos. O homem, porém, aprendeu a venerar o prego e a esquecer o corpo. Poema em referência ao quadro As Tentações de Santo Antão, pintor renascentista holandês Hieronymus Bosch, pintada possivelmente entre 1495...
Para não dizer que não falei de amores
Poesia contemporânea brasileira sobre amor, saudade, ausência e memória afetiva. Versos autorais de Pris Magalhães para quem sente o que nem sempre sabe nomear.