Pular para o conteúdo principal

Aquilo que não se nomeia

Poesia sobre sentir sem entender: quando o amor vira um quase

Tem sentimentos que não cabem em nome nenhum
só ficam ali
entre o que foi
e o que nunca chegou a ser

não sei o que sinto —

é um oco suspenso entre mim e ti,
um intervalo que respira
onde antes havia nome, gesto, calor

um vazio em volta do que fomos
que não chega a ser querer,
mas também não aceita o esquecimento

é um quase, um resto,
um eco do que não fomos

aquela ausência não dói como falta,
não chama, não grita —
mas às vezes
queria vê-la outra vez,

como quem revisita um sonho
sem saber se acorda ou permanece

há uma cor que se desfaz devagar
como tarde que se cansa de existir,
e nela a melancolia:

de ter visto um brilho inteiro
de uma infância que talvez
pudesse ter sido outra

eu inteira no seu inteiro
— era possível, eu acho —

mas nos dissolvemos
naquela nuvem que apontamos
no céu azul daquela tarde de verão

“é um coração”, eu disse
“não, é uma árvore”, disse você

e assim ficou:
indefinido como tudo que fomos

talvez ambos estivéssemos certos
talvez cada um tenha visto
o que já carregava no peito

e agora fico aqui
tentando lembrar aquela palavra —

ela vem, roça, insiste
coça na ponta da língua

é a palavra para quando alguém retorna
sem voltar

quando o distante se aproxima
e esticamos os dedos
sabendo que não vamos tocar

a palavra para esse quase encontro,
esse sentir sem corpo,
essa presença que não chega

a palavra para dizer
o que ainda é
mesmo já não sendo
Reflexões e escrita autoral © Pris Magalhães

Postagens mais visitadas deste blog

Entre Gente, Ninguém

  Poesia sobre se sentir invisível: me desfiz no meio da multidão Tem gente que some mesmo cercada de pessoas não porque quer mas porque ninguém fica No meio da multidão, me desfiz. Rodeada, fui sumindo por dentro. Chamam isso de vida... mas que diz a alma que se estreita em sofrimento? São tantos os que olham sem me ver, palavras ocas, toques sem calor. Conversam pra não ter que perceber que estou morrendo à margem do amor. Dizem: “Sente demais”, como um defeito. “Se entrega tanto”, como quem condena. Mas quem me amou sem peso, sem conceito? Quem viu a flor nascida em terra plena? Aos poucos, fui murchando, em silêncio, me encolhi para caber nos esquecidos. Meu peito foi do abismo ao reverêncio, hoje é grão de areia entre ruídos. Me usam. Me descartam. Me sorriem. Não sabem do vazio que carrego. E mesmo assim, meus passos ainda seguem na névoa dos espelhos onde nego. A esperança virou hábito, rotina. E o afeto, um deserto sem alarde. O que chamam de amor se contamina com...

Coisas Sentidas, Sem Voz

Nem tudo precisa ser explicado para existir. Algumas emoções permanecem silenciosas — mas eternas dentro de quem as viveu. Tudo o que vivemos existe — mesmo que ninguém saiba, mesmo que o mundo tenha seguido. Há coisas que não se dizem. Mas se sentem. Ficam ali: entre uma respiração e outra, entre um olhar e o fim. Não há verso que explique, nem gesto que baste. Há o que se sente. E isso, só nós sabemos. Reflexões e escrita autoral © Pris Magalhães

Entre as marés do que fomos

Na beira daquela praia de areia branca,   meus pés afundavam como cicatrizes na memória — fundidos à carne.   O mar dormia.   Dormia com olhos entreabertos, como quem guarda segredos de amantes afogados.   Só quem já amou de ventre aberto entenderia aquele murmúrio salgado.   Havia uma ponte — pequena, torta, feita de madeira esquecida —   um cais cansado onde o tempo largava o corpo pra ouvir o vento gemer.   E então veio a voz.   Rasgada. Cheia de ferrugem. Canto que não canta — corta.   Tem barco à vela e um amor verdadeiro.   Quem chegar primeiro pode navegar. Só não disse que poderia também sangrar... Ele.   Meu amor-senhor, cravado em mim como promessa não cumprida.   Tinha mãos de prece e ombros onde o mundo ia chorar em silêncio.   O peito era abrigo e tempestade — abrigo da tempestade.   E a voz...   a voz que uma vez me chamou de...