Florescer em carne viva
Eu floresço mesmo quando o mundo é inverno
Antes de qualquer palavra,
houve silêncio.
E nele, eu aprendi a caber
onde nunca fui inteira.
Eu fui silêncio antes de ser voz.
Fui sombra ensinada a não ocupar espaço,
corpo dobrado em caber no mundo dos outros,
nome sussurrado — quando não apagado.
Eu fui a que baixava os olhos
para não incendiar o desconforto alheio.
Fui a carne educada no medo,
no “não pode”, no “não deve”, no “não é seu”.
Por milênios, fui ferida aberta
que ninguém ousava chamar de dor.
Sangrei em segredo —
não só o sangue do ventre,
mas o sangue da história,
das mãos contidas,
das palavras engolidas,
dos sonhos interrompidos antes de nascer.
Fui chamada de fraca
enquanto sustentava o mundo nas costas.
Fui chamada de louca
quando finalmente comecei a sentir.
Fui chamada de tudo
menos aquilo que sempre fui: inteira.
Mas há um momento —
há sempre um momento —
em que o silêncio apodrece na garganta.
E então eu vejo.
Vejo o que me negaram.
Sinto o que me proibiram.
E eu grito.
Não um grito bonito,
não um grito poético —
um grito áspero, rasgado,
feito de séculos comprimidos no peito.
Eu grito com todas as que vieram antes,
as invisíveis, as marcadas, as queimadas,
as que foram caladas antes de aprender o próprio nome.
Eu grito por mim —
e já não peço licença.
Ser mulher é carregar cicatrizes
que ainda tentam me ensinar a encolher.
É conhecer o peso do próprio corpo
num mundo que o transforma em território.
É sentir o medo —
e ainda assim atravessar a rua.
É saber da dor —
e ainda assim abrir o peito para a vida.
Ser mulher é essa tensão constante:
entre o que tentaram fazer de mim
e o que eu insisto em ser.
Porque eu cansei.
E ainda assim —
eu existo.
Ainda assim, eu sou.
Sou a que caiu e levantou sem aplauso.
Sou a que aprendeu a se refazer no escuro.
Sou a que hoje ocupa, respira, expande.
Sou a que sente — profundamente.
A que vive — apesar.
A que permanece — sempre.
Porque ser mulher
não é só resistir.
É florescer mesmo quando o mundo
insiste em ser inverno.
Eu floresço.
Com sangue,
com voz,
com fúria,
com beleza.
Eu floresço.
E ninguém mais
me arranca da minha própria existência.
Reflexões e escrita autoral © Pris Magalhães
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