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A última vez

Houve um tempo em que a vida cabia inteira no quintal, no portão aberto, na rua de terra ou de pedra, no chamado da mãe vindo de dentro de casa, no riso dos amigos atravessando a tarde como se a tarde não tivesse fim. A infância tinha um gosto que depois nunca mais voltou igual: gosto de fruta comida sem pressa, de joelho ralado, de cabelo molhado depois do banho, de comida simples esperando na mesa, de pai chegando cansado e, ainda assim, parecendo eterno.

A gente não sabia que estava vivendo o que um dia seria saudade. Não sabia que certas tardes eram raras, que certos amigos ficariam para trás sem despedida, que algumas vozes, alguns cheiros, alguns gestos dos nossos pais seriam guardados dentro da memória como quem guarda uma fotografia antiga, já um pouco apagada, mas ainda capaz de doer. Naquele tempo, tudo parecia continuar para sempre, porque criança não entende o fim; criança apenas corre, inventa, acredita, chama, espera, brinca.

E havia coisas que chegavam e iam embora sem avisar que estavam indo. A última brincadeira na rua, a última vez em que todos se reuniram, o último abraço dado sem pressentimento, o último colo em que ainda cabíamos, a última vez em que ouvimos alguém chamar nosso nome daquele jeito antigo, familiar, inteiro. Só muito depois percebemos que a vida se despede em silêncio, sem cerimônia, sem fechar a porta com força. Ela apenas muda o cenário, leva uma pessoa para longe, envelhece um rosto, cala uma casa, transforma o que era presente em lembrança.

Mas há uma saudade que nem a lembrança alcança. Não é apenas saudade dos amigos, dos pais jovens, da casa, das brincadeiras ou das tardes compridas. É saudade de uma inocência sem nome, de uma forma de existir antes do medo, antes das perdas, antes de sabermos que tudo passa. É saudade de nós mesmos quando ainda não sabíamos que estávamos sendo felizes. É saudade do instante puro, do riso sem defesa, da confiança simples de que amanhã seria igual.

Talvez por isso a infância doa tanto quando volta. Porque ela não volta inteira. Vem em pedaços: num cheiro de chuva, numa música antiga, numa comida que lembra alguém, numa rua parecida com aquela onde deixamos nossos passos pequenos. Vem como quem toca de leve o ombro e desaparece antes que possamos perguntar seu nome.

E então entendemos, tarde demais, que muitas últimas vezes acontecem sem aviso. A última brincadeira não sabe que é a última. O último encontro não traz despedida. O último chamado da mãe não vem com legenda. O último riso com os amigos não anuncia que ficará suspenso no tempo. A vida segue, e só depois, muito depois, é que a alma se volta e percebe: havia ali uma eternidade disfarçada de tarde comum.

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